Por: Luciene Ferrari
Era 2005, ano de número ímpar, sem eleições, sem copa do mundo, sem olimpíadas. Nada de realmente importante tinha acontecido naquele ano. Lembro que a Shirley estava quase se formando em Jornalismo, vivia atarefada, cheia de trabalhos, e ainda tinha que dar conta do estágio, mas mesmo assim arrumava um tempinho para ir a Porto Alegre visitar os amigos de lá. Eu ficava por aqui mesmo, na pacata cidadezinha de Doutor Maurício Cardoso, com saudades e com uma pontinha de inveja de Shirley, a minha única grande amiga da época (e até hoje!). Pois quem diria, que numa dessas viagens a Shirley voltaria com uma puta novidade pra me contar:
- Show do Pearl Jam? Mas quando guria?
- É, sim, é verdade! Eu estava lá, todos estão comentando! O Pearl Jam vai estar em Porto Alegre, em novembro! E nós vamos!!!
- Vamos? Mas Shirley, eu sou uma dura, não tenho dinheiro nem pra um sorvete. Meu pai nunca vai deixar!
- Vai sim, teu pai confia em mim, e tu vai comigo. E quanto ao dinheiro, a gente dá um jeito!
Cara! Era hilário, mas ao mesmo tempo, triste. Eu tinha certeza de que meus pais não me deixariam ir. Rolavam boatos de que ia ser R$90 o ingresso, somando com as passagens de ida e volta até Porto Alegre, mais outros gastos necessários… Pelo menos uns R$300. Era muito dinheiro!
Os dias foram passando, quando recebi um e-mail da Shirley, dizendo que ela tinha encontrado uma excursão que ia para o show. Daria R$65. Junto com a notícia, ela me deu um ultimato: arruma a grana, depositamos para a minha prima que mora em Porto Alegre, e ela compra os ingressos pra gente. E vamos nessa porra!
Eu sei, foi loucura, aconteceu tudo muito rápido. Mas era o Pearl Jam, e eu tinha que dar um jeito. Então mandei a real para o meu pai:
- Pai, é uma oportunidade única! O Pearl Jam é uma das únicas grandes bandas grunge que ainda estão na atividade. Daqui uns anos eles morrem de overdose, aí nunca mais! Pai, tu tem que me ajudar!
- Ah, mas não dá, é muito!
- Pai, por favor. Fica sendo como um presente de aniversário, de Natal e de Páscoa! Juro que até abril não te peço mais nada…
Meia hora depois…
- Ta bom, mas se tu me pedir alguma coisa…
- AAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!
Quando eu depositei o dinheiro da excursão, confirmando o meu lugar, e quando depositei o dinheiro do ingresso, que na verdade foi R$120, porque a gente pegou pista, eu pude ter certeza: EU IA VER O PEARL JAM!
Foram dias de ansiedade. Shirley e eu só falávamos disso, ninguém mais nos agüentava. E eu não só falava em Pearl Jam, como também só ouvia Pearl Jam, só lia sobre Pearl Jam, respirava Pearl Jam. Era maravilhoso, mas não parecia real, acho que só vendo mesmo para acreditar.
A Shirley morava em Ijuí, fazia faculdade lá. Combinamos que um dia antes do show, eu iria para Ijuí na casa dela, dormiria lá, e pela manhã a gente ia esperar a excursão que nos levaria para o show. Até Porto Alegre daria umas 6 horas de viagem, sairíamos às 8h da manhã, daria pra parar para almoçar e chegar lá a tempo de pegar um bom lugar na fila e, conseqüentemente, um bom lugar na pista, quando os portões se abrissem.
Lembro que aquela noite foi hilária. Claro que a gente não conseguiu dormir, passamos a noite falando bobagem, tirando fotos e fazendo vídeos engraçados. A gente tinha medo de dormir e acordar de manhã vendo que tudo não passou de um sonho, e que não teria show nenhum. Ah, mas a gente não podia correr esse risco. Passamos a noite em claro, tomamos umas geladas e curtimos cada segundo da nossa euforia as vésperas do show.
Quando finalmente a manhã chegou, corremos esperar a excursão. Não conhecíamos ninguém, mas como todos ali buscavam a mesma coisa e estavam com as mesmas expectativas, não foi difícil se enturmar. A viagem parecia perfeita, a gente cantava, ria, chorava, discutia um possível set list, cogitava a presença do Marky Ramone… Até que…
- Como assim quebrou?
- É, a van quebrou! Estamos tentando consertar, e já ligamos para a empresa mandar outra, mas não tem nenhuma disponível!
- Mas quanto tempo isso vai levar? Não estamos nem na metade da metade do caminho, e nós precisamos ver o Pearl Jam!
- Calma, daremos um jeito!
Passou uma hora, passou duas, e o negócio começou a ficar preocupante. Estávamos muito longe de Porto Alegre, e uma viagem que tinha tudo para ser perfeita, começou a se tornar um pesadelo. A galera começou a chorar, tinha gente lá que esperou a vida inteira por isso, e agora estavam inativos, parados em um posto de estrada. O jeito era pedir carona!
Não, não fomos para POA de carona. Claro, que ninguém em sã consciência, daria carona para um bando de jovens vestidos de preto querendo ir para um show de rock. Mas a iniciativa de ir para a rua pedir carona, fez pressão no motorista da van, que acabou improvisando um ajuste para a mesma – que até hoje eu não sei como foi – e retornamos para a estrada, com o risco de quebrar de novo na primeira curva. Felizmente, Deus resolveu ficar do nosso lado, e a van não quebrou mais!

Claro que não paramos para almoçar. Como a van não podia andar muito rápido, cada segundo perdido seria uma eternidade. Chegamos no Gigantinho, onde seria o show, as 17h da tarde, horário exato da abertura dos portões. Estava muito quente, Shirley e eu compramos uma água mineral, mas não deixaram a gente entrar com água, porque ela poderia ser usada como arma (?). O show era para começar às 21h, até lá morreríamos desidratadas, mas tudo bem, a gente ia ver o Pearl Jam!
Conseguimos um lugar bom, quase na grade. Ficamos 3 horas paradas lá, sendo esmagadas por pessoas querendo um lugar melhor, ali na frente. Fizemos amizade com as pessoas que estavam ali ao redor, puxamos a música “somos a turma que mais fuma maconha, somos todos bêbados e não temos vergonha” e todo o gigantinho cantou com a gente. Foram momentos muito divertidos, e a gente nem viu o tempo passar, exceto pelo calor, que era insuportável!
As 20h, uma banda estranha, que nem fiz questão de lembrar mais do nome, entrou em palco. Eram dois caras, muito mal vestidos, com duas guitarras, tocando músicas cagadas. Não tinha bateria, nem baixo, era tenebroso. Claro que todo mundo começou a vaiar, ninguém queria ver aquela porcaria, o povo queria ver o Pearl Jam! Aí, cinco minutos depois, eles anunciaram o Mudhoney e saíram do palco.
O Mudhoney ia abrir pro Pearl Jam. Quando eles começaram a tocar, o gigantinho veio abaixo. Tinha muita gente lá que tinha ido para ver eles, mais do que o Pearl Jam. Aqueles carinhas que quase nos pisotearam, por exemplo. Ah, não dava para acreditar, eu estava vendo rock and roll de verdade, uma banda grunge de verdade. Eu conhecia poucas músicas do Mudhoney, mas quando eles tocaram “I hate police” eu também enlouqueci! A voz daquele cara é muito legal!
Às 21h10, mais ou menos, eu tive a certeza de que aquilo tudo não era um sonho. O Eddie Vedder entrou em palco, e o resto da banda também, cantando e tocando de um jeito tão natural, como se estivessem entre amigos. A forma como ele canta é algo inexplicável, é a forma mais verdadeira que já vi alguém cantando em toda a minha vida. A voz dele é linda, mas algo me perturbava:
- PEARL JAM, PEARL JAM! EU ESTOU VENDO O PEARL JAM LUCI!
É, a Shirley não parava de gritar no meu ouvido. Na verdade, ela não sabia o que fazer: tirava fotos, gritava, cantava, chorava, tudo ao mesmo tempo. A Shirley é contagiante, tem uma alegria que poucas pessoas que eu conheço tem. Eu estava ali, curtindo meu momento, mas ela me fez ficar eufórica, aí a gente começou a gritar e pular como umas malucas. Mas ela estava certa, a gente estava no show do Pearl Jam!

Eles abriram o show com uma baladinha, e depois partiram para as músicas mais agitadas. A galera pulava muito, Shirley e eu também, não tinha como ficar parada. Mas o calor ficava cada vez mais insuportável, a gurizada começou a desmaiar ali na frente, e eu quase fui também. Então, ali pela décima música, a gente não agüentou mais, e tivemos que sair dali e ir tomar uma água, antes que a gente desmaiasse e perdesse o resto do show.
Lá do banheiro deu para ouvir o Eddie falando as primeiras palavras. O mais legal de tudo é que ele falou em português! É, isso mesmo! Na verdade, ele estava lendo, deve ter ensaiado algumas palavras antes do show também, mas só pelo fato de ele ter se dado ao trabalho de fazer esse agrado, já bastou. Era lindo ver aquela voz rouca e cansada agradecendo a presença de todos na língua do país!
Voltamos para a pista e ficamos curtindo o show. No final das músicas o público puxava uns “Hey ho, let’s go!”, como se estivessem chamando o Marky Ramone. O Maky estava no Brasil na época, justamente em Porto Alegre, porque estava fazendo shows com o Tequila Baby. Como os Ramones eram amigos do pessoal do Pearl Jam, o público estava esperando que o Marky estivesse ali no show. Eu não conseguia acreditar naquilo, acho que na verdade não queria me iludir e ter uma decepção, mas bem lá no fundo, algo me dizia que sim.
A música “Crazy Mary” era uma das grandes esperadas do show. Quando começaram a tocá-la, o público vibrou e o coro ficou maravilhoso. Durante a música, o guitarrista e o tecladista começaram a “brincar”, fazendo disputa de solos. Foi bem legal, apesar de eu não curtir solos, mas esses eram diferentes, eram de gente que sabia o que estava fazendo, coisa de qualidade. No total, a música levou uns dez minutos para terminar, e quando terminou, o Eddie começou a falar, em um português bem enrolado, mais ou menos as seguintes palavras:
- A primeira vez que viemos ao Brasil foi há seis anos com Ramones. (Nesse momento o meu coração disparou, e eu peguei na mão da Shirley, puxei ela e fui puxando até voltarmos lá para frente. Eu só conseguia dizer “O Marky, o Marky”…)
E o Eddie continuava…
- Há quatro anos, perdi um grande amigo, e eu tenho certeza que vocês também o amavam muito, Jonnhy Ramone. (Nessa hora, eu comecei a chorar).
Depois disso, ele continuou a frase, só que em inglês. A única coisa que eu entendi foi “drums” e “Marky Ramone”. De qualquer forma, o gigantinho todo enlouqueceu e meu coração quase que saiu pela boca. Era ele, o Marky Ramone, ali na minha frente tocando “I believe in miracles” junto com o Pearl Jam.

Não tem como explicar, e eu nem vou tentar fazer isso. Foi o momento mais emocionante de toda a minha existência, porque eu fui naquele show para ver uma das grandes lendas do grunge, e de quebra, eu vi um grande ídolo, uma lenda do punk rock! Foi demais, porque eu não esperava. Ele só tocou aquela música, se despediu e saiu. Mas para mim, foi maravilhoso. Para completar o momento, depois da saída do Marky, eles tocaram “Alive”, a música preferida da Shirley, e uma das minhas preferidas também. A nossa felicidade estava completa, e a grana que a gente gastou se tornou pequenininha comparada a todas as emoções que tivemos naquela noite.
O show teve duração de, mais ou menos, duas horas e meia. Foram 25 músicas, tocadas por uma banda de muita qualidade, e cantadas por uma das melhores vozes do rock (na minha humilde opinião). O mais legal é que eles estavam se divertindo, e isso fazia o público vibrar mais ainda.
Teve uma hora que o tecladista colocou a camiseta do Grêmio, que alguém jogou no palco. Provavelmente ele nem sabia o que estava vestindo, mas quis fazer um agrado, e recebeu algumas vaias, é claro. Sem entender, tocou o resto do show usando a camiseta, foi demais! Teve um momento também, mais pro final do show, que levaram um bolo para o palco, para comemorar o aniversário de um deles – não lembro de qual era. Aí, cantamos parabéns, e no final os palhaços começaram a fazer guerrinha de torta.
E assim foi, um show cheio de surpresas, com um repertório extraordinário, que fez valer cada centavo gasto, todo o esforço, sofrimento, calor, enfim, tudo o que passamos para chegar até ali. Hoje, aproximadamente três anos depois, restam fotos, vídeos e lembranças, daquele que com certeza, foi meu grande momento, o dia que eu vi rock and roll de verdade!
- Pai, pai! Sabe os Ramones, aquela banda que eu amo?
- Jesus, que horas são, onde tu ta guria?
- Ai pai, estou em Porto Alegre, acorda!
- Ah, é verdade… Foi no show?
- Sim pai, acabou agorinha, foi maravilhoso! Eu só liguei pra te contar que, além de tudo, eu ainda vi o Marky Ramone, baterista dos Ramones, tocando!
- Que bom. Mas volta logo pra casa, porque a mãe tem bastante serviço e tu tem que ajudar.
- Te amo pai, obrigada por tudo!