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Acorde para o mundo, conheça outras alternativas…

Acorde para o mundo, conheça outras alternativas…

Por: Luciene Ferrari 

Obviamente, você já ouviu falar da atual crise econômica que afeta parte do mundo. Muito possivelmente, você já sentiu no seu bolso as conseqüências dessa crise, ou, pelo menos, conhece ou ouviu falar de alguém que a está sentindo.

Mas, e se eu lhe contasse, caro leitor, que existe uma outra forma de economia, na qual não existem essas tão inconvenientes crises, você acreditaria? É, pode parecer loucura, mas existe. Essa alternativa chama-se economia solidária, e se você nunca ouviu falar disso, ou ouviu e não deu importância, está na hora de começar a se ligar.

A economia solidária constitui-se em uma outra forma de organização econômica, a partir do trabalho coletivo, um jeito diferente de produzir, vender, comprar e trocar o que é preciso para viver. Nela, não existe patrão e empregado, todos decidem em conjunto e se beneficiam igualmente. É percebida também como uma forma de inclusão social.

Em palavras, é isso. Mas e na prática, que é o que interessa, existe algum exemplo? Existe! E não só um, ou dois, são muitos. No Brasil, no Rio Grande do Sul, e aqui mesmo, em nosso município. Mas não é sobre ela que vou começar falando, e sim de um exemplo maior, mais antigo, e que é hoje, talvez, a maior referência de que a economia solidária pode sim dar certo: o Banco Palmas.

O Banco Palmas é uma prática de socioeconomia solidária, idealizada pela Associação de Moradores do Conjunto Palmeira, um bairro popular, com trinta e dois mil moradores, localizado na periferia de Fortaleza – CE.

Há cerca de vinte anos, moradores desse bairro perceberam que apesar da vulnerabilidade social a que estavam imersos, todos tinham comida, vestimenta, móveis e eletrodomésticos, representando uma grande riqueza na comunidade, que estava saindo dali e indo para os grandes centros. A partir disso, resolveram trabalhar na criação de empreendimentos de economia solidária, produzindo tudo o que precisavam para viver ali mesmo, no bairro. Com isso, todo o dinheiro passou a circular somente entre eles. Criaram o Banco Palmas, e sua própria moeda social, chamada de Palmas. 

Cinco Palmas
Cinco Palmas

 Moeda Social é uma moeda complementar ao real, que tem por objetivo fazer com que o “dinheiro” circule na própria comunidade, ampliando o poder de comercialização local, aumentando a riqueza circulante na comunidade, gerando assim trabalho e renda. O funcionamento é simples: em vez de pagar em reais, o consumidor usa a Moeda Social circulante no seu bairro ou cidade. O comerciante faz a troca no Banco Social, caso precise consumir fora dali.

Hoje, o Conjunto Palmeira é uma referência de união, organização, e um grande exemplo de comunidade, em que todos juntos conseguiram vencer a condição de exclusão e pobreza em que se encontravam há vinte anos. E como venceram! Eles têm tudo na comunidade, desde a grife Palma Fashion, que produz roupas masculinas e femininas, a Palma Natus, que trabalha com sabonetes artesanais e fitoterápicos, a Palma Limpe, que produz vários tipos de materiais de limpeza, além da Loja Solidária, que comercializa produções artesanais, entre outras, e Feira do Banco Palmas, que é um espaço público onde são comercializados semanalmente produtos feitos no próprio bairro, além de ser um instrumento de reforço à cultura popular, dando oportunidade para apresentações artísticas de moradores do bairro.

Mas, como o Ceará está muito distante, vamos falar da economia solidária que acontece aqui mesmo, na cidade de Ijuí. A Unijuí – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, entre seus muitos projetos de extensão, possui um sobre a economia solidária. Quem diria! Talvez sua filha, irmã, seu cunhado, vizinho, ou você mesmo, sejam acadêmicos da Unijuí, e quem sabe nem sabiam disso ainda.

Este projeto, mais conhecido como ITECSOL – Incubadora de Economia Solidária, Desenvolvimento e Tecnologia Social, conta com uma equipe de professores da Unijuí, técnicos, bolsistas e estagiários, e atua como assessora de alguns empreendimentos de economia solidária, que aos poucos também estão se organizando na cidade e região.

Provavelmente, se você é acadêmico, professor ou funcionário da Unijuí, já deve ter visto as feiras que costumam acontecer mensalmente no Campus. São Feiras de Economia Solidária, onde também circula uma Moeda Social entre os feirantes, incentivando-os a consumir entre eles. A criação dessa moeda foi ideia da ITECSOL, e a aceitação do grupo foi muito satisfatória, sendo que hoje a moeda já tem até nome próprio, pensado pelos membros dos empreendimentos: Quero-Quero. 

Cinco Quero-Quero
Cinco Quero-Quero

 A Quero-Quero, primeira moeda social de Ijuí, que antes era apenas conhecida como “Social”, recebeu esse nome não só porque o passado é uma ave símbolo do nosso estado, mas também, baseada em uma lenda, conhecida pelos feirantes. Dizia a lenda, que um pássaro andava perdido pela floresta, sem saber ao certo o que procurava, apenas gritava “quero” por todos os lados onde passava. Até que um dia encontrou uma sábia coruja, que lhe falou: “Querido pássaro, para você achar seu caminho, não basta querer, é preciso e necessário querer duas vezes!” Assim, os empreendimentos pensam que na sociedade atual, para concretizar seus sonhos não basta querer, precisamos quer duas vezes, como conta a lenda do quero-quero.

O movimento da economia solidária está se expandindo no país e no mundo, e agora, com a crise, mais do que nunca. Quem antes não se interessava, agora busca mais informações, e geralmente encontra ali uma alternativa de organização econômica, além de valores como a autogestão, democracia, cooperação, solidariedade, respeito a natureza, promoção da dignidade e, sobretudo, valorização do trabalho humano.

Na economia solidária já existem cerca de trinta e cinco bancos e cinco moedas próprias oficiais em circulação. Isso só no Brasil. É uma alternativa totalmente diferente da economia globalizada, o oposto. E agora você já sabe que ela realmente funciona. Não existe crise na economia solidária, porque a riqueza fica na própria comunidade.